Após ataque, movimento #OcupeEstelita desfaz acampamento - TV Pernambuco

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Após ataque, movimento #OcupeEstelita desfaz acampamento

O movimento #OcupeEstelita desfez na noite de ontem o acampamento montado sob o viaduto Capitão Temudo. Segundo nota publicada na madrugada de ontem pelo movimento em suas redes sociais, os ativistas que pernoitavam no acampamento vinham sofrendo ataques por grupos de pessoas desconhecidas. Na noite da quinta-feira, 10, dois integrantes foram atingidos por pedras e vários foram ameaçados.

A ocupação começou no dia 21 de maio, quando ativistas montaram acampamento no terreno do Cais José Estelita para impedir a demolição dos galpões para o início das obras do projeto Novo Recife, e se mudou para a área do viaduto após a ação de reintegração de posse, em favor do consórcio proprietário do terreno, no dia 17 de junho.

Atividades culturais, educativas e políticas serão mantidas

Atividades culturais, educativas e políticas serão mantidas

Apesar de terem desfeito o acampamento, o movimento, que pede a rediscussão e revisão do projeto de requalificação da área, informa que manterá as atividades políticas, culturais e educativas que vinham sendo realizadas no local e na praça Abelardo Rijo, assim como continuará participando do debate para a revisão do projeto, que, em seu desenho original prevê a construção de 12 torres de uso empresarial e residencial.

Fruto da mobilização pela discussão da cidade, uma audiência pública foi convocada pela Prefeitura do Recife para discutir o plano urbanístico para a área. A audiência está agendada para a quinta-feira, 17 de julho, às 14h, no auditório da Fafire, bairro da Boa Vista.

Confira na íntegra a nota divulgada pelo movimento:

Ocupe Estelita, Ocupe a Cidade!

O Movimento Ocupe Estelita defende uma cidade para todas as pessoas. Questiona as decisões que tornam o Recife uma cidade segregada, com espaços públicos abandonados, reduzidos, privatizados. Por defesa de uma cidade mais democrática, o movimento se manifesta há cerca de 3 anos em frente aos armazéns do Cais José Estelita. Aquela ampla área histórica, com enorme potencial de uso para a cidade, que deveria ser revitalizada tendo em vista toda a população, foi vendida para iniciativa privada sem nenhum planejamento urbano, permitindo a quase aprovação de um péssimo projeto de condomínios privados. O movimento denuncia que, além de ilegal, esse projeto intensifica diversos problemas endêmicos da cidade, como a segregação social, a péssima mobilidade urbana, a falta de espaços públicos e áreas de lazer, e não dialoga com seu entorno, que possui um grande déficit habitacional.

No dia 21 de maio de 2014, as construtoras ligadas ao projeto “Novo Recife” – Moura Dubeux, Queiroz Galvão, GL Empreendimentos e Ara Empreendimentos – iniciaram a demolição dos galpões para precipitar os seus interesses de forma autoritária, sem as autorizações necessárias. Com o fim de proteger a legalidade do processo, o movimento ocupou a área referente ao empreendimento questionado.

A ocupação transformou-se em um espaço de referência para a discussão do Recife e de seus problemas e foi utilizada para atividades culturais, aulas abertas, produção coletiva de atividades artísticas etc.

No dia 17 de junho, durante o jogo do Brasil na Copa da Fifa, o movimento foi surpreendido com uma ação policial truculenta, que deixou dezenas de pessoas feridas, com balas de borracha, gás de pimenta, chicotadas, golpes de cassetetes, bombas de efeito moral, entre outros. Enquanto as/os manifestantes eram agredidas/os, as empreiteiras do projeto “Novo Recife” – Moura Dubeux, Queiroz Galvão e cia. – colocaram para dentro da área maquinário de construção, e um aparato de segurança que transformou o local num verdadeiro campo de concentração: arame farpado, cães guardas, câmeras de segurança, e dezenas de guardas armados.

Apesar da violência policial sofrida, o movimento ocupou a área debaixo do Viaduto Capitão Temudo. A ocupação, que teve como objetivo inicial a proteção do espaço contra os atos iminentes de demolição, manteve-se resistente, e ampliou-se para um convite à cidade para discutir o projeto “Novo Recife”, e a destinação do espaço urbano. Não há dúvidas de que os objetivos da ocupação foram alcançados: hoje a cidade e o mundo discutem o Cais José Estelita; a cidade e o mundo discutem o Recife.

Apesar de todos os desafios de conduzir um movimento custeado apenas por autogestão popular, que enfrenta um projeto bilionário e uma estrutura perversa de poder que mescla interesses empresariais e governamentais indistintamente e de forma antiética, e de ter que lidar com grupos que promovem discursos e atos de incitação ao ódio e à violência contra as/os militantes, após 50 dias de ocupação, o movimento #OcupeEstelita propõe uma nova forma de ocupar a área do Cais e do Recife.

Prezando pela segurança de suas/seus membros, e redirecionando seus esforços, viemos por meio desta nota comunicar que não haverá mais pessoas do Movimento dormindo no local. Contudo, as atividades políticas, culturais e educativas permanecem.

(Hoje, dia 10 de Julho, por volta das 20 horas, durante a preparação para a reestruturação do espaço – que já havia sido planejada – as/os ocupantes do Movimento sofreram mais um ataque violento por parte de pessoas desconhecidas, com fortes indícios de um ato direcionado, numa estratégia grosseira de acuar e desmobilizar o #OcupeEstelita. Neste ataque covarde, em que dois militantes foram atingidos por pedras, várias/os foram ameaçadas/os, um ônibus foi depredado, não só o Movimento foi vítima, mas a cidade como um todo. É importante registrar que esses atos se somam a uma série de outros ataques que já vinham acontecendo e sendo divulgados: perseguições, espionagem virtual, e ameaças diversas. Não nos deixaremos intimidar).

Enquanto a defesa do projeto “Novo Recife” elogia a violência e a desinformação, o Movimento Ocupe Estelita trabalha em prol da elucidação e da informação de todas/os as/os cidadãs/ãos, porque tem a convicção de quantos mais de nós compreenderem a importância e o potencial do Cais José Estelita para o desenvolvimento sustentável da cidade, mais de nós serão favoráveis a outros projetos, verdadeiramente capazes de revitalizar a área e integrá-la ao seu entorno.

O Cais José Estelita – e a por nós descoberta Praça Abelardo Rijo – segue sendo um ponto de referência na luta por uma cidade mais humana. E o Movimento Ocupe Estelita segue sendo uma referência de que cidadãs/ãos movidas/os por uma causa justa e pela convicção de que cidade deve ser popular, de todas/os, e promover qualidade de vida para todas/os, são capazes de enfrentar os maiores obstáculos, enfrentar o poder econômico, enfrentar o poder governamental.

Estão todas/os convidadas/os para fazer história conosco, ocupar o Cais e participar de nossas atividades políticas, educativas e culturais. Nós estamos mudando a nossa cidade. E este é um caminho sem volta.

Começamos ocupando. Agora é hora, mais do que nunca, de expandir e resistir.

É apenas o começo!

Movimento Ocupe Estelita